segunda-feira, 13 de maio de 2019

"Aquela ali é a terrível"


Todas as vezes que vamos ao mercado nos deparamos com uma série de produtos e seus rótulos. Nestes estão contidas todas as informações referentes àquele. Tudo que compõe aquele objeto está ali, não há nada além.
Esse e outros tipos de rótulos estão presentes nos nossos dias e são de grande utilidade para a comunicação. Por exemplo, seria muito mais cansativo dizer refrigerante gaseificado sabor cola do que simplesmente o que estamos acostumados: coca-cola. Rótulos são práticos e nos permite uma compreensão facilitada ao nos referirmos a determinadas coisas.
O problema é quando utilizamos a mesma lógica com pessoas. Especificamente com os pequenos. E é sobre isso que pretendo falar.
Logo que cheguei ao primeiro dia de observação no CMEI, me foi passado um “roteiro” elencando quem era quem na turma. Diferente de “aquela ali é Fernanda, aquele João, a outra no canto Ângela”, o que foi dito foi algo como “esse aqui é o capeta, a gente faz de tudo pra deixar ele gastar a energia. Aquela ali é terrível, não obedece ninguém. Essa é a introspectiva e esse aqui a gente acha que é autista.”. Sem nomes. Apenas o Capeta, a Terrível, a Calada e o Autista.
Depois, na hora do parquinho ao juntar com outras turmas avistei uma criança chorando e fui questioná-lo sobre o motivo. No meio do caminho fui abordada pela professora que disse: “preocupa não, ele é novato. A mãe já falou que ele é inseguro e emocionalmente frágil”. Pronto, o Inseguro.
A questão é: quem são essas crianças por trás desses rótulos? Por que o Capeta está fazendo aquela birra? Porque a Terrível empurrou o colega? Por que a Calada não está brincando junto com os outros? Por que o Autista está no canto conversando sozinho? E por que o Inseguro voltou a chorar? A resposta vem sem qualquer possibilidade de compreensão. O Capeta tá fazendo birra porque é capeta. A Terrível empurrou o colega porque é terrível, e por aí vai...
Senti como se aquelas crianças fossem resumidas à isso. Sem nada além. E sem possibilidade de mudança por consequência. Rotulando-as de forma tão rígida deixamos de enxergar todas as outras características que as compõem, suas limitações e suas potencialidades. A Terrível é terrível porque é e pronto, e também não é mais nada além disso. Não pode ser, além de terrível, curiosa, esperta, ágil e criativa, porque é a Terrível.
Mais que isso, quando se rotula uma criança, consequentemente estamos colocando-as em oposição a um padrão normativo. Um padrão constituído num ideal onde a valoração pelas singularidades, seja em suas personalidades ou nas histórias individuais que as sustenta, é ignorada. E ainda, tudo aquilo que foge ao padrão se torna patológico e por isso deve ser extinguido. De preferência o mais rápido possível. E aí dá-lhe Ritalina.
Por isso é importante questionarmos tal lógica da patologização do singular. Do quieto ao acelerado, da calada ao que fala pelos cotovelos, da que gosta da “fuzarca” ao mais organizado... O importante é saber que as diferenças existem e que são preciosidades, não doenças. E que uma criança nunca é uma coisa só, mas sim um universo de outras tantas, além de um mar de possibilidades do que podem vir a ser.

Por Anna Luisa Cabral (Licencianda em Psicologia - UFG)

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